quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O gaúcho e o cavalo

Sempre torci o queixo para o livro "O Gaúcho" de José de Alencar. Afinal, que poderia um pisa flores como ele saber de nossa cultura? Terminei ontem de madrugada e, apesar de alguns exageros, típicos da época em que foi escrito, foi uma grata surpresa tê-lo conhecido finalmente.

As aventuras de Manuel Canho para vingar o pai e acalmar a alma são acompanhadas de perto por seus cavalos, a quem ele tinha como irmãos. E essa essência, de Centauro do Pampas, Alencar soube expressar muito bem. Com bem menos talento, por supuesto, fiz algum tempo atrás uns versos que agora compartilho. Ainda com a lembrança dos pingos literários Juca, Morena, Ruão e Morzelo! Que Deus os tenha, assim como todo flete pampeano, extensão e alma do gaúcho!



Se meu cavalo falasse

Tenho um cavalo de ouro,
Daqueles que não se esquece,
Mas tá partindo, meu mouro
Pois cavalo também envelhece!

Meu flete está me deixando,
Mas pra sempre vou lembrá-lo,
Vai meu pingo trotando,
No rumo do céu dos cavalos...

Não queria ver o momento
Do final desta parceria,
De rédea um pensamento,
Ah, que baita montaria!

Se o meu cavalo conversasse,
Quantas histórias contaria
Ah, se o meu pingo falasse,
Quem sabe o que ele diria...

"Troteei na pampa afora,
Paleteando muito boi brabo,
Já servi de carga e escora,
Mas sou forte e nunca me acabo"

"Cavalguei faceiro no corredor,
Levando no lombo o ginete,
Que sempre me deu valor,
E me tratava feito gente"

"Era bem mais que meu dono,
Pois era como um amigo,
Montava com tope e entono
E sempre contava comigo!"

"Nas correrias de marcação
Ou trotando rumo à mangueira
Nem precisa rédea na mão,
Quando a dupla é bem parceira"

"Quando se ia pros fandango,
As pilchas bem arregladas,
Levava na mão um mango,
Somente pra fazer fachada!"

"E eu ia loco de bueno,
Pateando de cola alçada,
Faceiro feito um sinuelo,
Desfilando pela estrada"

"Mas o tempo passa pra todos,
E passou pra mim também,
Vieram pingos mais novos,
Só me restou dizer amém!"

"Não me arrependo de nada,
E sempre vou confirmá-lo...
Tive a existência iluminada,
Que bom que nasci cavalo!"



Homem e cavalo em uma só alma parelha: em dose dupla é ainda mais bagual

Parceria: Chupim veio de guerra, meu parceiro de 20 de Setembro






quinta-feira, 10 de julho de 2014

#7 Razões para perdermos a Copa



Parafraseando Pascal: o futebol tem razões que a própria razão desconhece. Ainda assim, vale nos debruçarmos um pouco sobre o tema e fugir dos julgamentos superficiais que já inundam as redes sociais depois do fracasso da seleção brasileira. 

Cada uma dessas razões daria um livro e, provavelmente os “especialistas” os escreverão, com títulos do tipo: Mineiraço; A tragédia de Belo Horizonte; 6 minutos no inferno; Apagão; Massacre Alemão e outras coisas do gênero. Muitos se aprofundarão no lugar comum mas, talvez haja uma exceção que faça uma reflexão sensata e honesta dos acontecimentos. Enquanto ela ainda não aparece, nos resta tecer comentários e especular sobre o que aconteceu.

Seja como for, a forma como reagirmos a isso é que nos definirá. Como time ou nação. Porque essa é uma encruzilhada interessante: se nos apequenarmos e buscarmos culpas individuais, onde há responsabilidade coletiva, então seguiremos medíocres. Mas, se reagirmos com grandeza, nos tornaremos maiores. 

#1 Cabeça fraca

Imagino que essa razão perpasse todas as outras. Os brasileiros, de forma geral e, sobretudo, no esporte, têm sérias dificuldades em reagir às adversidades. Começar perdendo causa um bloqueio mental difícil de ser transposto. Não era um roteiro previsto e, conforme foi piorando, mais paralisados ficavam os jogadores. 

Evidentemente, a tal “questão emocional” entra aqui também. E não vejo problema nenhum em se emocionar ouvindo o hino cantado a capela por um estádio lotado. O problema, se é que houve, é saber manter o foco apesar disso. Não acho que isso tenha sido determinante.

O Brasil tem a alegria como marca. O que, paradoxalmente, nem sempre é algo positivo. Por um motivo simples: a vida – e também as competições -  não são uma festa. Embora tudo nessa Copa fizesse parecer que sim. E, enquanto o clima de festa imperou, a seleção saiu-se relativamente bem, embora sem um futebol exuberante. Bastou um desafio mais sério e o tal roteiro imprevisto e o que se viu foi a essência brasileira em campo. Da alegria ao drama e daí para a tragédia pouca coisa poderia ter sido feita sem a cabeça no lugar. Por fim, nada foi feito!

#2  Pressões

Pressão da torcida, da imprensa, dos adversários, do próprio time e, principalmente do favoritismo. O qual, aliás, só se justificava por jogarmos em casa. Mas a ideia de que ganharíamos, não só porque podíamos, mas porque era nossa obrigação, acabou criando uma armadilha da qual não se podia escapar. E, a cada jogo, nos enredávamos cada vez mais nessa rede de ilusões.
E a torcida (que, temeu-se, não apoiaria a seleção), empolgava-se a cada jogo, cantando o hino a plenos pulmões, com um sincero sentimento de brasilidade. A imprensa, apesar das críticas, via em nosso elenco o que tínhamos de melhor. Se não encantava em campo, ao menos estava avançando na competição. E ambos, torcida e imprensa, não aceitavam nenhum resultado que não fosse a conquista do hexa. Esqueceram que do outro lado sempre havia times que queriam tanto quanto nós a vitória.
Além disso, o próprio time acreditava cada vez mais no discurso do favoritismo, esquecendo que era apenas isso: um discurso.

#3 O treinador turrão

Felipão nos deu o penta com uma seleção, a princípio, desacreditada. Porém, Felipão tem limitações como formulador de estratégias, embora saiba contagiar seus jogadores e motivá-los ao extremo. Cria com eles uma simbiose indissolúvel e tudo isso é muito positivo. Mas não é suficiente. Era preciso alternativas táticas para um elenco limitado. Sejamos honestos: essa estava longe de ser uma safra memorável, mesmo que fosse o que tínhamos de melhor. O que, de certa forma, atenua a culpa do técnico, mas não o absolve. Por força do “vamo que vamo”, fomos até longe demais. 

Nos “seis minutos trágicos” em que tomamos uma saraivada de gols, era preciso lucidez para notar, logo no 2x0, que algo precisava ser feito. Uma substituição ou alguém que simulasse uma lesão, um enfarto, qualquer coisa. Mais pela parada em si e pela tentativa de refrear a blitzkrieg alemã do que para transformações táticas. Mas Felipão estava tão atônito quanto todos os que acompanhavam o jogo, inclusive (o que é pior) os próprios jogadores. Não tomou uma atitude e já era tarde. Dificilmente o Brasil reverteria o placar, pois não tem essa virtude de viradas heroicas. Mas ao menos a surra não seria tão dolorida. Pecou pela omissão!

Ainda assim, merece respeito por tudo o que já fez pela seleção. Embora respeito não seja uma palavra muito comum na cultura brasileira.

#4 Imprensa esquizofrênica

“Não vai ter Copa”, era o que se lia nos ameaçadores cartazes espalhados pelo país. A imprensa, sempre sedenta pelo roteiro mais chamativo (para não dizer apelativo) propagava a ideia que as manifestações iam “parar o país”. Não soube como se posicionar em junho de 2013, assim como não soube ler o atual momento. Como não tinha mais o apocalipse das ruas para dramatizar as manchetes, de uma hora para outra, resolveu que nossa seleção não tinha futuro na Copa. Embora sem explicações razoáveis para tal aposta.

Assim, a cobertura esportiva dividia-se entre o ufanismo e a crítica pela crítica, como raras ilhas de bom senso em meio ao mar de “entendedores de futebol”. Apesar disso, o público continuou abraçando a seleção. A imprensa esportiva, tão conhecedora do futebol (principalmente aquele jogado nos videogames), criticava tudo e todos, escudando-se na boa e velha desculpa de que “esse é seu papel”. Embora, em outras latitudes a imprensa tenha mais apoiado do que criticado suas seleções. 

Criou-se uma animosidade entre a seleção e a imprensa, provocado em muito por essa postura arrogante dos “entendedores de futebol” ao ponto de muitos terem saboreado a derrota da seleção com um cretino “eu não disse?”. Opiniões a parte, quando a imprensa quis fazer jornalismo ela foi sensacional. Um comportamento que, se não é esquizofrênico, ao menos é bipolar.

#5 Politização do futebol

Se algo era previsível nesta Copa é que ela seria politizada ao extremo. O que surpreendeu é que foi a própria sociedade (ou parte dela) que se encarregou disso. Primeiro, com as manifestações, muitas vezes distorcidas, que pediam, em resumo, um Brasil “padrão FIFA”. Depois, com as paralisações oportunistas e greves chantagistas, que não queriam outra coisa senão um “dindin” a mais. 

Além disso, a tese de que “se o Brasil ganhar o PT não sai mais do governo” ganhou muita força, por mais absurda que seja. Ideologias a parte, basta um breve estudo de nossa história política recente para certificar-se de que Copas não influenciam eleições. Pelo contrário, geralmente o resultado das urnas é o oposto do resultado em campo. 

Era (e é) mais sensato acreditar que os resultados extra campo (infraestrutura, segurança, mobilidade) influenciassem os resultados políticos. Mas, em tempos de redes sociais, onde todos têm opinião sobre tudo e a instantaneidade da rede é uma tentação aos que “têm algo da dizer”, o discurso mais superficial é sempre o mais atraente, justamente porque é de superficialidades que se retroalimenta a rede. 

De que forma isso influenciou em nossa derrota? A questão da politização está intimamente ligada aos itens #2 e #4. 

#6 O fantasma de Neymar

“O rei está morto, longa vida ao rei!” era a frase com que tradicionais monarquias saudavam o novo rei quando o antigo morria. Neymar não estava morto e também não tínhamos um novo rei. Mas devíamos ter “enterrado o defunto” no momento adequado. O que se viu, no entanto, foi o fantasma de Neymar pairando sobre a seleção. 

Criou-se um exagerado sentimento de perda, que emulava a comoção com a morte de Airton Senna. Isso em plena Copa do Mundo, com o Brasil ainda com chances! Ronaldo e sua convulsão as vésperas da final de 98 estão aí para lembrar as consequências disso. 

Ainda nem havíamos jogado, mas já nos lamentávamos como se uma tragédia já houvesse acontecido. E também os jogadores se deixaram levar por esse luto artificial. Não souberam virar a página e até a camisa de Neymar apareceu durante o hino. Justa homenagem, dirão! Concordo, desde não ficassem a espera dele durante o jogo. 

Isso explica, em parte, porque não entramos em campo naquela fatídica tarde de 8 de julho. Estávamos enlutados demais para jogar futebol!

#7 A Alemanha

Essa talvez seja a melhor das lições a levarmos dessa Copa. Do outro lado, sempre há seleções com tanta ou mais vontade de vencer do que nós. Todo favoritismo deve ser relativizado e talvez a Costa Rica tenha sido o melhor exemplo disso. Ou seja, o Brasil precisa aprender o significado da palavra humildade. E isso não significa reassumir a pecha de "vira latas", porque ela não nos cabe mais (se é que algum dia coube).

Não bastasse tudo isso, do outro lado estava a Alemanha, o melhor time da competição. Tricampeã do mundo, tão tradicional quanto o Brasil na história das Copas. Eficientes taticamente, excelentes tecnicamente, vigorosos fisicamente e experientes competitivamente. E mais: souberam aproveitar, como talvez ninguém mais aproveitasse, os momentos de paralisia física e mental da seleção brasileira.

E, para aqueles que gostam de estatísticas, coincidências ou numerologia - as duas seleções que conquistaram o tetracampeonato (Brasil e Itália) o fizeram exatos 24 anos depois do tri: Brasil 70-94. Itália 82-06. Então a Alemanha 90-...14! Estava escrito!

Existem outras tantas razões para termos perdido, além de variações dessas mesmas. O fato é que se trata de um jogo. E todos sabem (ou deveriam saber) que não se ganha sempre. Novamente, como reagiremos a isso é que nos dirá se ainda merecemos o título de país do futebol.



quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A Batalha do Rio Negro e uma das maiores mentiras sobre a história do Rio Grande

Exatamente hoje, 27 de novembro de 2013, completam-se 120 anos de um dos episódios mais emblemáticos da história gaúcha. Foi neste dia, na estação do Rio Negro, próxima a Bagé, que se deu uma das batalhas mais sangrentas da Revolução Federalista.

Naquele dia, uma coluna do Gen. Joca Tavares atacou a coluna do Mar. Isidoro Fernandes, entrincheirada nas cercanias da estação. A luta foi feroz e após um dia inteiro de peleia os maragatos impuseram uma estrondosa derrota aos chimangos: mais de trezentos castilhistas foram mortos na batalha.

Ocorre que depois da derrota, os chimangos, que detinham a máquina pública e boa parte da imprensa gaúcha, criaram o boato que persiste até hoje: que os 300 mortos, na verdade, haviam sido degolados pelos maragatos. O mito foi crescendo e com a vitória dos castilhistas ao final da guerra, foi a versão que permaneceu na história.

Mas a verdade é bem diferente disso. Basta uma pesquisa histórica isenta e de certo fôlego para mostrar que houve, de fato, degolas naquele dia, mas foram em torno de duas dúzias. Os condenados eram criminosos conhecidos, contratados como mercenários, prática comum entre os castilhistas (e, em menor medida, também pelos maragatos).

Uma visita ao diário de Joca Tavares dá detalhes sobre esse dia. Embora representasse um dos lados e, portanto, fosse naturalmente parcial, o diário do general é minucioso e detalhista e não deixa dúvidas quanto aos eventos daquele dia. Além disso, pesquisas feitas pelo grande historiador Alfredo Ferreira Rodrigues (por acaso, meu bisavô) indicam também que aconteceram pouco mais de 20 degolas.

Por outro lado, não resta dúvida sobre a ação criminosa do Cel. Firmino de Paula no Boi Preto, em abril de 94. Surpreendidos enquanto churrasqueavam, cerca de 280 maragatos foram degolados, a título de "vingança". Muitos foram mutilados, castrados e torturados antes de lhes passaram a faca no pescoço.

Essa é uma parte da história do Rio Grande que tenta-se esquecer. Mas só conseguiremos nos livrar de nossos fantasmas quando os encararmos de frente. A Revolução Federalista, que completa 120 anos, merece ser revisitada. A história, como sempre, foi escrita pelos vencedores. Mas ela não está completa.



quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O cadáver no armário

A notícia da exumação do ex-presidente João Goulart tem gerado debates que, na maior parte das vezes, são marcados pelo desconhecimento da história, pela superficialidade de argumentos e, como é comum em tempos de redes sociais, pelas “opiniões de manada”.

Os primeiros se referem a Jango como o presidente que queria implantar o comunismo no Brasil. É uma ideia absurda e que não encontra amparo na realidade. Aliás, foi exatamente esse o argumento daqueles que deram o Golpe Militar em 64. Se a preguiça de ler (e entender) a história for muito grande, basta uma busca rápida pelos principais jornais do país na véspera do golpe. Ali estão todos os argumentos rasos que se usaram na época e que, incrivelmente, são repetidos hoje, passados 50 anos, por aqueles que desconhecem a história e/ou se opõe a que se conheça a verdade.

Jango queria sim fazer mudanças profundas e estruturais no país. Suas reformas, que tanto assustaram (e assustam) uma elite acostumada ao status quo de beneficiários do poder, tinham sim um viés fortemente social. Pode-se até dizer socialista. Mas confundir isso com comunismo é: A) burrice; B) preconceito; C) desconhecimento; D) ressentimento; E) todas as anteriores.

O segundo grupo, tributário do primeiro, é formado por aqueles que chamam o processo de exumação do corpo de Jango (ou a criação da Comissão da Verdade) de revanchismo. Ora, conhecer a própria história não tem a ver com revanchismo, vingança, represália, retaliação ou qualquer outro dos termos comumente usados nesses debates. Trata-se, isso sim, de saber de fato o que aconteceu. E se isso tem um custo (outro dos argumentos superficiais) não tem preço! Como diria Cícero: “Aquele que desconhece a história será para sempre criança”. Ou, se preferirmos Kant, jamais sairá da menoridade e será para sempre tutelado.

Vários países que sofreram períodos ditatoriais estão passando a limpo sua história. Espanha, Chile, Argentina e Uruguai, para ficar apenas em alguns exemplos, tiveram a coragem de tirar seus cadáveres do armário e encarar o seu passado. E depois disso o sentimento geral foi, acima de tudo, de reconciliação.

O terceiro grupo é o habitat natural dos preguiçosos, cujos raciocínios são de curto alcance e, portanto, torna-se mais fácil seguir o que a maioria diz. É o grupo predominante nas redes sociais, onde um comentário raso, mas potencialmente polêmico e popular, agrega seguidores-ameba, ou seja, sem capacidade de pensamentos próprios. O argumento mais utilizado no caso concreto é o famoso e já gasto “ao invés de gastar dinheiro com isso deveriam investir em saúde, etc”. Com o qual todos os seguidores-ameba concordam, adicionando outros exemplos do melhor uso de verbas públicas. Gestores de primeira, sem dúvida. Mas esquecem que, como já dito, conhecer a história tem um custo, mas não tem preço.

É possível que ao final de todos os exames conclua-se que Jango morreu mesmo de causas naturais. Ou que não se conclua nada! A questão é que a história voltou a ser discutida e debatida. Ainda que, por vezes, de forma tão rasa. Jango merecia esse resgate. Podia ter resistido (ainda que sem muitas chances) e acabaria deflagrando uma guerra civil, com contornos imprevisíveis. Preferiu o exílio, o desterro, a saudade e o esquecimento. O Brasil tem uma dívida histórica com esse homem. Que agora começa a ser paga.


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O naufrágio em Lampedusa e o paradoxo da xenofobia europeia

O recente naufrágio próximo a ilha de Lampedusa, na Itália, carrega em si um simbolismo mais forte do que a mídia tem conseguido interpretar. A frágil embarcação trazia cerca de 500 pessoas a bordo, das quais apenas 155 foram resgatadas com vida. Infelizmente, é provável que todas outras tenham morrido. Os corpos ainda estão sendo resgatados.

E esse é exatamente o ponto de que trata esse post. A mídia, sobretudo a brasileira, não demonstra a mínima capacidade de contextualizar a situação. Primeiro porque tem preguiça (ou simplesmente não sabe como fazer), e apenas reproduz o que as agências internacionais produzem. Sequer menciona que os imigrantes, na sua maioria refugiados da Somália e Eritreia, buscavam a Itália não por um acaso da natureza. Ocorre que esses países, assim como a Etiópia, foram colônias italianas por quase 100 anos. Exploradas de todas as formas possíveis e imagináveis, essas nações apresentam hoje índices baixíssimos de desenvolvimento humano. A Somália, em especial, vive uma sangrenta guerra civil há mais de 20 anos.

Pessoas desses e de outros países africanos buscam a Europa para tentar sobreviver. E também para cobrar uma dívida histórica. Mas, façamos um parêntese para entender o que pensam do outro lado do Mediterrâneo.

Walfare State

A Europa vive uma crise. Econômica, claro. Política, sem dúvida. Mas, sobretudo, uma crise de identidade. O Velho Continente, que na segunda metade do século XX foi um esplendor do humanismo, hoje volta-se para velhas divisões e maniqueísmos.

Depois da 2º Guerra Mundial, com a Europa praticamente em ruínas, surgiu o conceito do “bem-estar social”. Baseado no keynesianismo, a ideia era que os governos provessem aos cidadãos recursos mínimos de subsistência. O “Estado Providência” garantiria a todo o indivíduo, desde seu nascimento até a sua morte, uma série de bens e serviços, através de sua capacidade de regulamentação sobre a sociedade. Entre esses direitos se incluem educação em todos os níveis, a assistência médica gratuita, o auxílio desemprego, uma renda mínima, etc. Nada disso como favor, esclareça-se. É o retorno dos impostos, reinvestidos na sociedade, de maneira inteligente e equitativa.

Ao longo de toda a segunda metade do século XX, este modelo se estabeleceu no continente, moldando as políticas públicas para a sociedade europeia. Tais políticas geraram, ao longo dos anos, um custo cumulativo, que agora se apresenta impagável.

A previdência, justamente um dos pontos que os governos vêm tentando modificar, tem um papel relevante nesta fatura. Primeiro porque a idade de aposentadoria em quase toda a Europa é relativamente baixa, por volta dos 60 anos. Segundo, a expectativa de vida cresceu consideravelmente nas últimas décadas. Logo, os aposentados ficam, cerca de 20 anos (ou mais) recebendo benefícios. E um terceiro fator é justamente o envelhecimento generalizado da população européia. Ou seja, há cada vez menos jovens no mercado de trabalho para bancar uma crescente demanda da previdência.

Cortes

Os cortes anunciados na Europa incidem, basicamente, sobre a política social. Ou seja, quem vai pagar a conta pela ineficiência do Estado será o cidadão. Em alguns casos, os benefícios sociais se tornaram, de fato, inviáveis. Porém, a solução pelo corte puro e simples a longo prazo cria um problema ainda maior. Cortando-se postos de trabalho, prejudica-se a economia, gera um maior número de desempregados, que por sua vez, vão demandar mais ações do Estado. Cortando-se benefícios como assistência à saúde, de modo preventivo, amplia-se a demanda por assistência médica mais complexa, que por sua vez custa mais caro aos cofres públicos.

Com a guinada à direita que vive a Europa hoje, os governos estão preocupados em dar sinais de agilidade e eficiência ao mercado. Mas com protestos, paralisações, greves e desemprego, não há mercado que resista. Mais uma vez, a cartilha liberal parece ignorar as lições que a onda do “laissez-faire, laissez-passer” causou ao mundo na crise de crédito. Guilherme Alexandre, recém coroado rei da Holanda (um dos países, aliás, que mais se beneficiaram com a exploração do continente africano) disse, ao assumir o trono, que não há mais espaço para o Walfare State. Para o "pobre" rei, que nunca precisou trabalhar na vida, as pessoas têm que aprender a se virar sem a ajuda do Estado.

Além destas questões, há outra que sacode a Europa hoje. Como sempre em momentos de crises estruturais é preciso achar um bode expiatório. Isso já criou situações delicadas e dramáticas. E cria também um paradoxo interessante.

O paradoxo da xenofobia

Como se não bastassem os efeitos devastadores da crise sobre o velho mundo, nos últimos anos a Europa tem vivenciado uma onda de xenofobia sem precedentes. Porque desta vez, não só parcela da sociedade hostiliza os imigrantes, mas as autoridades têm criado diversos complicadores para a vida de estrangeiros por lá. A Itália, por exemplo, implantou recentemente regras mais rígidas nesse sentido. Ainda que sua Ministra da Integração seja, ironicamente, uma africana, a ítalo-congolesa Cecile Kyenge (o Congo foi durante décadas colônia belga).

Porém, isso cria um complexo paradoxo: por um lado, os imigrantes (oriundos, sobretudo, do norte da África, Eurásia e leste europeu) são acusados de causar o desemprego entre europeus, mas por outro, é a mão de obra imigrante que ocupa as vagas que os “desenvolvidos” não querem. Outro argumento da xenofobia é que os imigrantes são cada vez mais numerosos, tem uma média de três filhos e não param de chegar. De outro lado, a Europa está cada vez mais velha, com uma taxa de natividade baixíssima e, consequentemente, um decréscimo populacional acentuado.

Por tudo isso, o momento por que passa a Europa é delicado e gera preocupação. O mundo espera o desfecho dessa crise com ansiedade. E torce para que medidas populistas e apressadas deem lugar a ações refletidas, políticas duradouras de crescimento sustentável e, principalmente, reconciliação da Europa com sua tradição de pluralidade e tolerância.

Para terminar, uma frase do grande etíope Abebe Bikila, bicampeão olímpico da Maratona, depois de vencer em Roma. Bikila, que correu descalço, viu no dia anterior à prova um monumento que os romanos haviam roubado de seu país. Depois de vencer ele disse: "foram precisos milhares de romanos para conquistar a Etiópia, mas apenas um etíope para conquistar Roma".

P.S. Outra embarcação naufragou nas mesmas circunstâncias dias atrás. Outras virão... A questão é o que fazer com elas.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Outros tempos - 20 de setembro

Por ocasião do 20 de setembro, posto aqui um poemito, no qual faz-se uma crítica aos modismos que desvirtuaram a essência pampa.

Outros tempos
Sentado sobre os pelegos
Deixo o mate molhar a palavra
Mirando o passado e colhendo
Os poucos versos de mi lavra

Os tempos agora são outros,
A essência pampa se vai, apartada
Os recuerdos agora são poucos
E nossa história se esvai, transformada

A tradição agora tem dono
Como se pudessem embretá-la,
O patrão agora tem trono
E a história se trai, maltratada

Se fazem agora regramentos
Das vestes da gauchada
E se esquece dos outros tempos
De nossa gênese esfarrapada

Memórias índias vão esquecidas
No campo santo das Missões
Palco de lutas aguerridas
Entre lanças e canhões

Encerram-se liberdades
Nas fronteiras pampeanas
E se criam, nas cidades
Fantasias haraganas

Nos campos de Cima da Serra
Novas modas são inventadas
Trazidas de outras terras
Ganham campo nas canhadas

Mais estranho é o cancioneiro
Que se diz voz do nosso chão
E espanta o estancieiro,
O capataz e o peão.

Tudo concentra e emana
A mui leal e valorosa,
E os gaúchos de fim de semana
Se desvelam em verso e prosa

Mas agora os tempos são vagos
E não importam as tradições
O que vale agora são cargos
E o faz de conta de galpões




segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Fugindo da Bolívia

A história da fuga do senador boliviano para o Brasil, que se tornou pública no último final de semana e ganhou grande repercussão, lembra o enredo de um filme de suspense. De contornos ainda imprecisos, no entanto, resta saber quem são os mocinhos da história. Em uma primeira análise, parece que o diplomata brasileiro Eduardo Saboia é o (anti?)herói da trama. Ao menos, agiu com coragem e de acordo com sua consciência, embora as consequências possam ser negativas. Mas, não é exatamente isso que distingue um "herói" dos demais? Fazer o certo, o justo, sem esperar medalhas ou recompensas por isso? Vejamos...

O senador boliviano Roger Pinto Molina estava refugiado na embaixada do Brasil em La Paz, capital boliviana, há 455 dias. Ali recebeu asilo político no dia 08 de junho de 2012, ou seja, poucos dias após dar entrada na representação brasileira naquele país. Ao contrário do que muitos pensam, a embaixada de um país no exterior não é uma extensão do seu próprio território. Ainda assim, regras de Direito Internacional garantem a sua inviolabilidade. Ou seja, ninguém, nem mesmo a mais alta autoridade do país anfitrião, pode nela adentrar sem expressa autorização do representante da embaixada. Por isso, Molina sentia-se seguro ali, pois ao menos sua integridade física estava garantida. Vale lembrar que o Brasil, logo no início de sua Constituição Federal, fala expressamente sobre o tema:

TÍTULO I

Dos Princípios Fundamentais

Art. 4º A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios:
II - prevalência dos direitos humanos;
X - concessão de asilo político.

Vê-se que Saboia guiou-se também pelo que emana da nossa própria Leia Maior. Fala-se porém, que ele, Saboia, não teria autoridade para efetuar o traslado do senador asilado ao Brasil sem consultar autoridades superiores. Pois bem, na ausência do embaixador era ele a pessoa que detinha maior autoridade na embaixada. E, diante da burocracia para a resolução do problema (vide o caso de Manuel Zelaya) e diante também de um quadro de desrespeito dos direitos humanos (Molina estava deprimido e já falava em se matar), Saboia resolveu agir e planejou e executou uma operação no melhor estilo agente secreto.


O grupo (Molina, Saboia e mais dois fuzileiros navais que faziam a segurança), saiu de La Paz em dois carros e dirigiu até Corumbá, no Mato Grosso do Sul, onde o senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES), presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, conduziu o senador boliviano até Brasília em jato particular. A operação era extremamente arriscada, sobretudo pelo fato de Molina não ter um salvo-conduto expedido pelo governo boliviano, ao qual ele faz oposição. 

Esse talvez seja o ponto central da questão. O governo de Evo Morales tem dado sinais de intolerância com a oposição (justificada ou não, não vem ao caso). Além disso, a demora das autoridades brasileiras em resolver a questão (o caso já estava há algum tempo no STF esperando resolução), levou a essa situação kafkaniana: Molina tinha o status de asilado político, mas não podia deixar a embaixada sob pena de ser preso assim que saísse. O próprio Evo, é bom lembrar, foi vítima de um constrangimento em recente viagem à Europa, quando suspeitou-se que ele trazia em seu avião o ex-funcionário da CIA Edward Snowden. Sem falar no caso de Julian Assange, do Wikileaks, que está asilado (e ilhado) na embaixada equatoriana em Londres.

Contra Molina pesam acusações em seu país, inclusive de corrupção. Isso, no entanto, compete à justiça boliviana julgar. O fato é que o Brasil havia concedido asilo político a ele sabedor dessas questões. E agora parece querer eximir-se da operação de fuga do senador colocando todo o ônus da ação nas costas do diplomata Eduardo Saboia. O governo da Bolívia já avisou que vai pedir a extradição de Molina, o que dificilmente ocorrerá.

A diplomacia brasileira é reconhecida internacionalmente por seu profissionalismo e excelência técnica. Além disso, a diplomacia é uma carreira de Estado e não de governo. Diplomatas, em tese, não agem por motivação política. Seja como for, espera-se que o Itamaraty dê o devido respaldo ao seu funcionário, que parece pertencer a mesma estirpe do grande Sérgio Vieira de Melo. São as grandes atitudes que fazem os grandes homens. Agora é torcer para que o governo brasileiro não se apequene.


P.S.: Depois da publicação desse post saiu a notícia da troca de comando no Itamaraty. Não era o desfecho ideal, mas acredito que Luiz Figueiredo seja muito melhor que Patriota e Amorim. Veremos...